Avacalhada

Existem três tipos de desespero. O material, que é quando você se dá conta de que não vai conseguir pagar a fatura do cartão esse mês. O existencial, quando você percebe que  não fez nada de bom na sua vida e provavelmente vai morrer sozinha assistindo Programa Silvio Santos. E o primordial, que você só sente quando tem um bicho enraivecido te perseguindo. E hoje eu vou falar sobre o último.

No final do ano passado eu fui visitar meus avós, que moram numa fazenda no meio do nada. E graças às pesadas chuvas que castigaram a região no período, a fazenda estava sem energia elétrica. Antigamente isso significaria apenas banho gelado, já que a fazenda tinha uma roda d’água que bombeava água da represa pra fazenda. Nos meses mais secos a água fedia peixe e depois do banho você fedia mais do que antes do banho, mas o importante é que tinha água.

Hoje a fazenda está moderna e tem uma bomba d’água elétrica que puxa água limpinha de um poço artesiano, o que é lindo se você tem eletricidade. Não era bem o nosso caso. Então caso quiséssemos lavar louça, lavar roupa ou tomar banho precisávamos descer até a represa. Só tinha um problema:

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Na verdade eram vários problemas. Várias vacas recém-paridas, com bezerrinhos novos mamando e acompanhando as mães. Acreditem quando eu digo que não existe nada mais bravo do que mamífero tomando conta de cria pequena. E vacas são bravas e pesam uns 800 quilos. Já falei que elas são rápidas também? As bichas correm que nem raio, as tetas balangando. Tudo pra proteger a cria.

Por isso mesmo descemos de comitiva: eu, meu avô e duas funcionárias da fazenda segurando uma bacia cheia de louça suja que tinha acumulado. Meu avô pediu ajuda pra tocar as vacas e tirar elas do caminho, pra que as moças conseguissem passar com a bacia de louça. Eu muito pimpona, veterinária especialista em ruminantes pela USP, peguei um pedaço de pau e fui tirar as vacas do caminho. Eu estava prestes a descobrir que vaca não respeita diploma.

– Ô, vaca! Ôa! – gritei na direção das criaturas, que começaram a se mover na direção que eu queria.

Continuei tocando as vacas até que percebi que uma se desgarrou do rebanho e começou a me encarar. Era uma vaca preta enorme, com uma corrente no pescoço e um bezerrinho malhado que a seguia. Eu sabia que ela era brava porque precisava da corrente na hora de tirar leite. Não deixei ela me intimidar: continuei gritando e balançando o pedaço de pau na direção dela. É nessas horas que a gente se dá conta do quanto está ridiculamente despreparada. Aquela vaca podia me amassar toda no chão barrento e depois ainda usaria o pedaço de pau pra palitar os dentes.

Foi nessa hora que eu vi a vaca abaixar a cabeça e continuar me encarando. Eu sabia o que viria a seguir. HAMIGA, a vaca veio louca na minha direção, babando e com sangue no zóio. Tentei manter a minha posição, mas nem meio segundo depois eu tava correndo como se o próprio Satanás estivesse me perseguindo. Eu podia jurar que vi Jesus pedindo pra São Pedro abrir as portas do céu porque eu tava chegando.

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Ah, eu falei que estava correndo de costas? Pois é, de costas, encarando a vaca ainda.

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Não vi que estava próxima do comedor das vacas e que a chuva tinha transformado a coisa toda num lamaçal digno de Pântano da Tristeza. As vacas só ajudaram, pisoteando, cagando e mijando em tudo. Eu só sei que quando cheguei naquela areia movediça cheia de tudo que é porcaria, eu atolei até a coxa. Eu fiquei presa e prontinha pra servir de saco de pancada pra vaca. Não sei como a vaca desistiu de quebrar a minha cara. Vai ver ela ficou muito ocupada dando risada e acabou desistindo de tirar o meu couro.

Só sei que passei um bom tempo pra me desatolar do lamaçal. E mesmo depois de me libertar, eu tinha perdido as duas havaianas. Ou seja, eu precisei cavucar a lama fedida por pelo menos uns 15 minutos até conseguir recuperar meus dois pés de chinelo. Quando terminei, estava com as duas pernas e os dois braços cobertos de lama preta e fedida. E mesmo depois do banho improvisado na represa, eu passei uns três dias fedendo rejeito de vaca.

Mas essa nem foi a pior parte. A pior parte foi ter que ver meu avô contando pra todo mundo que chegava na fazenda que a vaca só não me pegou porque eu atolei tão engraçado que ela parou pra dar risada. Aparentemente, meu tombo foi hilário pra quem assistiu. Eu não achei porque eu meio que podia ter morrido. Perdi os chinelos, perdi a humanidade e to sem dignidade até hoje.

Definitivamente, o Mato Grosso do Sul não é pra amadores.

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