7 de setembro de 2004

Essa história é 100% real. Eu estou contando porque ela aconteceu comigo e porque foi o dia que eu mais passei medo na vida.

Quando nós falamos em Pantanal geralmente as pessoas imaginam água em abundância, jacarés tomando sol e tuiuiús voando, mas era época de seca. Em maio para de chover, e quando chegamos a setembro está tudo tão seco que as queimadas varrem a paisagem. Os dias são áridos, infernalmente quentes e aquela fumaça constante das queimadas toma conta, deixando tudo com um visual enevoado de sonho (ou pesadelo, no meu caso).

Tipo Silent Hill, mas quente e cheio de pernilongos. (Via.)

Assim nós decidimos que seria legal passar o feriado num balneário próximo da cidade. Minha amiga alugou um chalé pra passarmos a noite por lá e nós estávamos animadíssimos. Quantas histórias de terror que vocês conhecem que começam exatamente desse jeito? Um grupo de amigos à procura de diversão, um lugar aparentemente legal mas isolado… Foi assim que começou.

Nós chegamos no balneário de tarde, o lugar estava lotado e nós fomos direto para as piscinas de água corrente. Depois fomos para o chalé descansar um pouco. Eu lembro que trouxe alguns CDs comigo e estávamos ouvindo música quando minha amiga V. disse que havia uma fazenda abandonada ali perto e ela queria ir lá. Eu não me lembro o porquê de não ter ido junto logo de cara, já que geralmente eu sou a pessoa que tem ideias ruins e acabo levando os outros pro buraco junto comigo. Sei que ela foi, junto com o namorado A. e com meu irmão e eu fiquei pra trás junto com uma amiga B. e o irmão dela E.

Sim, eu achei o lugar no Google Maps. Em azul, o balneário e a área dos chalés. Em vermelho, a fazenda abandonada.

Sei que nem 10 minutos depois minha amiga V. voltou dizendo que o lugar era incrível e a gente tinha que ir lá ver. Daí eu fui, e junto foram os outros dois amigos (B. e E.) que haviam ficado pra trás comigo. Inclusive minha amiga B. tinha levado sua novíssima câmera digital e pegou ela pra tirar umas fotos do lugar. As fotos que seguem são as originais daquele dia, e já estou pedindo desculpas pela qualidade.

O lugar podia ser próximo, mas era difícil de entrar. Precisamos passar por uma cerca de arame farpado, mas eu – moça criada em fazenda – tinha larga experiência em varar cerca e fiz isso com certa tranquilidade mesmo estando de biquíni e saia jeans. Meus amigos logo se juntaram a mim e começamos a explorar o lugar. Ainda era de dia, por isso estávamos tranquilos. Logo que cheguei, fiquei impressionada com o tamanho das construções. Algumas casas não tinham mais o telhado, mas as paredes estavam firmes e cheias de pichações (algumas datadas da década de 40!!!).

O lugar tinha duas ou três fontes, provavelmente eram bebedouros pros animais. Mas o mato ali estava cortado e aquele devia ser o primeiro sinal de que a gente não devia estar ali…

Uma das fontes. Reparem no mato cortado ao redor e dentro da fonte. Ainda estava verde, sinal de que tinha sido cortado bem recentemente…

Entrei num galpão enorme e sem telhado, que não tinha nada dentro a não ser um forno gigantesco. Procurei não pensar muito naquilo, já que eu cabia inteirinha de pé no forno.

Vocês conseguem ler 1889 ali em cima da porta? Dá pra ver o forno no centro. Essa tarja preta eu coloquei muito tempo atrás pra tapar minha foto de biquini hahahaha 🙂

Uma das casas estava trancada, mas meu irmão deu um jeitinho arrombando a porta. Mas logo que entramos ficamos instantaneamente arrependido porque o local estava tomado por centenas de morcegos.

MORCEGOS! Mais um sinal pra sair correndo dali.

Acho que nesse ponto eu decidi que era aventura demais pra mim e que era hora de voltar. Mas meu irmão, minha amiga C., minha amiga V. e o namorado dela decidiram que iam seguir uma trilha que entrava pelo mato.

Eu, minha amiga B. e o irmão dela estávamos quase na cerca quando vimos os outros quatro correndo e gritando “CORRE! CORRE!”. Sabendo que eles gostavam de fazer piadas, achei que era gozação com a nossa cara. Mas eles estavam com uma cara de pavor tão genuína que a gente achou que era melhor correr também. Não demorou pra eles nos alcançarem e vararmos a cerca não tão graciosamente quanto da primeira vez. Cortei meu braço no arame farpado e minha amiga B. perdeu um chumaço de cabelo, que enganchou na cerca.

Nós nos trancamos no chalé, sem fôlego. Até que minha amiga V. finalmente nos explicou o que aconteceu. Eles seguiram a trilha até uma casa mais afastada e entraram. A casa era tão antiga quanto as outras construções da fazenda, mas não parecia estar tão abandonada assim… Dentro dela haviam vários vidros cheios de coisas estranhas, pedaços de animais e líquidos esquisitos. Minha amiga pegou uma dessas garrafas na mão quando um homem estranho chegou e gritou “O que vocês estão fazendo?”. Ela jogou a garrafa no chão e eles saíram correndo, perseguidos pelo homem.

Sabe qual a parte divertida de um balneário? É que de dia ele fica lotado. Mas as pessoas tendem a ir embora quando o sol se põe. Assim, nós nos demos conta de que estaríamos sozinhos durante a noite.

E que noite, meus amigos. Barulhos estranhos. Cantos. Cachorros uivando. Tambores batendo. Eu tinha certeza absoluta de que aquela seria minha última noite na terra. Num dado momento nós conseguimos ouvir uma voz de homem atiçando os cachorros, que começaram a uivar e latir mais alto. Trancamos a porta e amarramos as cangas nas janelas do chalé, apavorados. Em algum ponto da noite escutei um barulho nas janelas, como se alguém estivesse tentando entrar. É nesses momentos que você se dá conta do quanto está ridiculamente despreparado pra enfrentar qualquer perigo. Agarrei uma faquinha de serra que levamos junto com a comida e torci pra não acontecer nada.

Uma noite em claro depois, nada aconteceu. O sol nasceu e nós saímos do chalé. Não havia mais ninguém ali além da gente. Era como se o dia anterior não tivesse acontecido. O balneário começou a se encher aos poucos e eu juro que comecei a achar que tudo aquilo tinha sido coisa da minha cabeça. Mas pode perguntar a qualquer um dos meus amigos que passaram aquela noite comigo. Nunca mais.

5 comments

  1. Eu realmente leio os seus posts pensando “o que essa menina não passou ainda????” quantas aventuras, sério
    por mais que vocês tenham quase morrido é mais uma história né, imagina que um dia seus netos vão dizer que a avó deles era muito top

  2. Cena de terror total, com exceção de que vocês saíram todos vivos, graças a Deus! Se fosse eu, teria congelado de medo e não ia sair do lugar, ou melhor, nem voltava pro balneário… Fiquei com medinho só de ler!

    Beijo enorme, Mari ❤

  3. Que assssustador!
    quando comecei a ver as fotos das janelas da casa, fiquei com medo de “descer” pra ver o resto das fotografias do post, achei que teria foto de fantasmas! hauahauh ~medrosa que sou~ eu simplesmente arredaria o pé daí e teria muito medo! Você é bem corajosa, mulher!
    Mari, amei conhecer teu blog. Um carinho no meu core! <3

    Um beijo!
    21invernos.blogspot.com.br

  4. Que “causo”, Marina! Parece mesmo enredo de filme de terror RS
    Eu jamais passaria por uma dessas, pois sou cagona demais e nunca teria entrado na fazenda abandonada! 😉
    Beijos!

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