Gringa degringolada

Era a primeira vez que eu visitava Natal. Estava sozinha na praia, que estava atipicamente vazia pra uma manhã de verão. E como já tinha andado bastante, decidi entrar no mar. Pendurei a câmera e a bolsa numa cerca meio afundada na areia e entrei na água. O mar não estava muito bravo naquele dia, era dia de maré morta. Eu não estava distante da praia, já que queria ficar de olho nas coisas que deixei penduradas na cerca. Mas apesar de não estar agitado, eu tomei alguns caldos e, quando me dei conta, uma corrente me arrastou pra longe da praia.

Tentei nadar de volta meio no desespero e o chão simplesmente havia desaparecido. Enquanto tentava voltar, uma onda grande me virou do avesso. Engoli água e senti a queimação que era ter água salgada entrando pelo nariz. Continuei lutando pra recuperar o equilíbrio e voltar à praia. Meus pés finalmente tocaram o chão, mas devia ser apenas a ponta de uma pedra coberta de ostras afiadas. Cortei o pé e outra onda grande me virou de cabeça pra baixo.

Como eu escapei? Não faço ideia. Talvez Iemanjá tenha devolvido a oferenda. Talvez aquela não fosse a minha hora. Mas eu escapei. Consegui sair do mar me arrastando, a parte de cima do biquíni toda enrolada, cheia de areia no cabelo, cuspindo água salgada. A alguns metros de mim, uma mulher enorme (eu juro, ela devia ter mais de 1,90m) usando salto 15 e um maiô engana-mamãe gritava “PROTETOOOOOOR! VOCÊ TEM QUE USAR PROTETOOOOOOORRRRRRRR!” enquanto fazia gestos como se passasse algo nos braços.

Sim, pessoas. Ela achou que eu era uma gringa burra que nunca tinha ido a praia na vida e que provavelmente passaria o resto da semana de cama porque estava toda queimada de sol. Olha, nisso ela tinha razão. Eu realmente fiquei cheia de queimaduras aquele dia, mas o ponto não é esse.

Queimada sim, mas sem perder a ternura.

Outra praia em outro estado, Porto de Galinhas dessa vez. Eu estava aproveitando o final da tarde quando passei por um grupo de locais. Um deles comenta em voz alta: “Gringa boa, pena que não entende português!”.

Eu olhei em volta ~discretamente~ me dando conta de que eu era a pessoa mais branca da praia, quase vazia naquele horário. Sabe quando você demora pra realizar que o comentário havia sido direcionado pra você? Continuei andando como se não tivesse ouvido nada, mas a minha vontade era voltar lá e mandar um OLHAKI KIRIDINHO?? Gringa é a putakilpariu!

Longe de ser a primeira ou a última. Ser confundida com gringa até pode parecer um negócio engraçadinho, mas é bem chato por dois motivos:

  1. as pessoas acham por bem falarem os maiores absurdos na tua frente porque acreditam que você não fala português.
  2. as pessoas acreditam que podem cobrar o triplo do preço que cobrariam pra um brasileiro porque você recebe em dólar (ou euro).

Mas apesar de tudo, nem sempre isso é desvantagem. Eu já me esquivei de cantada/vendedor insistente só falando I’m sorry, I don’t speak Portuguese… Normalmente a pessoa só arregala os olhos e foge. Deve ser a tal da gringofobia que a gente ouve falar nas propagandas de cursinho de inglês.

Estou de viagem marcada, mas precavida que sou estou levando dois biquínis fio-dental. Vocês até podem achar que eu tomei gosto por mostrar a bunda por aí depois daquele incidente no meu local de trabalho, mas a verdade é uma só.

E quero ver quem vai me achar gringa com a bunda de fora.

Encare seus medos

Uns dois dias atrás eu tive um sonho. Sonho não, um pesadelo do pior tipo. Sabe quando você acorda e o pesadelo fica contigo o resto do dia, como uma pedra pesada em cima do seu peito? Esse tipo de pesadelo.

No sonho, eu era perseguida por uma cobra. Eu sabia que a cobra era venenosa, pela aparência áspera das escamas, pelo formato da cauda e pelas pupilas. Era uma cobra preto e branca, muito similar a uma urutu-cruzeiro com as cores invertidas.

Oi gente tutu pon (Via)

A cobra era agressiva, vinha atrás de mim, era rápida. Mas eu sempre conseguia escapar. Ela me perseguiu por toda a fazenda do meu vô, na beira da represa, até dentro da casa. Um hora eu consegui agarrar ela e ela me olhou nos olhos. Eu estava com medo, mas não deixar de encarar. Quando eu finalmente consegui matar ela, ela inflou como um balão e…

…explodiu. Ela liberou um gás que irritou minha garganta e meus olhos.

Então, o que eu faço disso tudo? Eu sou especialista em interpretar os sonhos alheios, não os meus próprios. Sabe cabeleireira que não consegue cortar o próprio cabelo? Tipo isso.

Eu cresci com muito medo de cobra. A vida inteira nós ouvimos sobre as cobras venenosas que se escondiam no mato, entre as pedras. As sucuris que moravam na represa. O que mais causava medo era também o que mais me fascinava. A expressão mais primitiva de tudo que eu temia. Engraçado que nem lembrava que sentia tanto medo até ter esse sonho.

Talvez por isso mesmo eu tenha escolhido uma cobra pra minha primeira tatuagem. Porque eu tenho medo sim. E eu estou viva. E se tem alguma coisa que eu consegui absorver desse sonho é que, por mais que eu sinta medo, eu consigo encarar. Sem fugir.

Tenha medo, mas faça de qualquer jeito. O mais importante é a ação. Você não tem que esperar até ter confiança suficiente. Apenas faça. E eventualmente a confiança vai surgir. ❤️

Encare seus medos. Aprenda com eles. E nunca, jamais deixe de viver por conta deles.

Férias!

A partir de hoje, 8 de janeiro, estou oficialmente de férias. Sim sim, é o título do post, certo? Porém sair de férias pra mim é complicado: eu não desligo do trabalho. E nem é por falta de confiança em quem ficou responsável pela minha função. Porque a pior coisa que pode te acontecer é você ser insubstituível, já que uma pessoa que não pode ser substituída vai ficar eternamente no mesmo lugar. Não, o meu problema é que eu deixo o meu trabalho me definir e, quando não estou trabalhando, eu me sinto como se não fosse eu mesma.

Então pra evitar que eu enlouqueça completamente nesses dias eu vou tentar fazer algumas coisas. A primeira delas é voltar a desenhar. Eu me dei conta de que não desenhei nada em 2017. Pra onde foi minha criatividade? Daí eu me lembro que tenho um livro parado pra terminar (de escrever, não de ler) e que compus muito em 2017 (sério, eu escrevi pelo menos 5 músicas). Aparentemente minha criatividade só foi direcionada pra outras áreas.

Pelo menos eu voltei a desenhar já

Eu também não posso parar de estudar. Vou reativar meu Duolingo e voltar a estudar outro idioma. Falar alemão é um sonho antigo e eu sempre fui completamente apaixonada pela sonoridade desse idioma. Também queria muito ler meus autores favoritos no idioma original. Muita coisa é perdida quando você traduz algo. E fotografia! Eu amo fotografar, mas não fiz isso em 2017. Hora de pegar minha câmera de novo, desacelerar e tirar algumas fotos.

E vocês? Fazem alguma coisa pra desacelerar/relaxar? Eu super to aceitando dicas (por fora estou rindo, mas é de desespero).